sábado, 3 de dezembro de 2011

BELO MONTE - UM MONTE DE MENTIRAS

Tem algo de muito errado no projeto da usina Belo Monte, provavelmente trata-se de uma mentira energética das grossas: parece que decidiram colocar um motor de Formula-1 num carro comum de passeio. Se concretizarem a besteira, várias maquinas enormes, de 550 MW cada uma, com turbinas que engolem mais de 600 mil litros por segundo ficarão paradas por vários meses, e pode acontecer de não haver água suficiente para virar nenhuma máquina!
Quando a história mal contada começou a ser descoberta, aí o “pai da criança”, engenheiro Muniz Lopes inventou outra, para desviar o foco: a usina Belo Monte ficaria ligada no Sistema Interligado Nacional e haveria uma compensação desse período muito seco no Xingu, por que o período do ano seria o oposto do período seco nos demais rios brasileiros. Ora, o Xingu nasce no mesmo Planalto Central que os rios Tocantins, São Francisco, e boa parte dos formadores do Paraná, e todos eles enchem de novembro em diante até março/abril e depois esvaziam. Pode sim, existir uma diferença de, no máximo um mês e pouco, por exemplo, em relação ao rio Iguaçu ou ao rio Uruguai, que nascem na Serra do Mar e passam por uma região mais próxima do Oceano. Agora “períodos opostos” entre os ciclos hidrológicos do Xingu e dos demais rios brasileiros é outra mentira, propalada pelos mentirosos de sempre !
Qual a destinação prevista da energia elétrica a ser ali produzida? Eis a pergunta óbvia que qualquer cidadão interessado faz. As respostas variam conforme a ocasião. Em 2001, quando ressuscitaram o projeto, diziam que era a fórmula salvadora contra o apagão. De lá para cá, continua sendo, “para evitar um novo apagão”. Mas dizem também que seria para garantir a futura expansão econômica brasileira, para gerar empregos na Amazônia, para desenvolver todo o pais para sempre, etc.
Entretanto, quase nunca deixam escapar que a eletricidade, que seria farta e barata, seria destinada para a ampliação aqui, no Pará, da industria mineral-metalúrgica internacional, devoradora de energia. Para aqueles brasileiros que ainda acham que na economia da Amazônia só pesam a madeira de lei, o gado, a soja, é bom registrar que já estão instaladas ali por perto do projeto Belo Monte, entre o leste do Pará e a metade Oeste do Maranhão: a maior mina de bauxita do mundo (MRN, em Oriximiná) e está sendo aberta a segunda maior (Jurutis, perto de Santarém), a maior fabrica de alumina, Alunorte, na região de Abaetetuba, no baixo Tocantins, as duas maiores fundições de alumínio, a Albrás também em Abaetetuba e a Alumar, na Ilha de São Luis, Maranhão, mais a maior concentração de grandes minas metálicas do mundo atual, nas Serras de Carajás: minérios de ferro, de cobre, de manganês, de níquel, industrias de concentração de cobre e de níquel, alem de médias siderúrgicas, que fazem ligas de ferro com outros metais, e os pequenos fornos de ferro-gusa. Quase todas essas empresas são estrangeiras ou de maioria estrangeira, quase toda essa produção é exportada, a preços bem vantajosos, para os chineses, japoneses, europeus e norte-americanos. Tudo isso consome muita eletricidade vinda pelos linhões da usina de Tucuruí.
É isso que se pretende multiplicar por três, quatro vezes, em pouco tempo, e para isso serviria a eletricidade do Belo Monte. Ao concretizar esses planos dos grandes trustes mundiais da mineração e metalurgia, também se garante a continuidade das rendas e do poderio da máfia comandada pelo ex-presidente Sarney, de seus filhos, de sua filha e seu genro e mais uma dúzia de apadrinhados, como o Ministro Lobão e o presidente Muniz Lopes da Eletrobrás.
“Honoráveis bandidos”. Foi o titulo escolhido pelo jornalista Palmério Dória para o livro que lançou em Setembro de 2009 sobre essa máfia, cuja alavanca principal é o dinheiro público, como lemos nas páginas 47 e 45 desse livro: “Quando foi criado o programa Grande Carajás, com jurisdição sobre o Pará e o Maranhão, criou-se também um mecanismo de incentivo fiscal que permitiu à Camargo Correa em vez de pagar imposto sobre esse superlucro ( da construção de Turucuí e outras grandes obras na região) , aplicar no projeto Alumar, na ilha de São Luis. O truque beneficiou a principal controladora da empresa, a (norte-americana) Alcoa, que não precisou botar dinheiro no negócio... A Alumar recebeu um contrato de energia semelhante ao da Albrás, fazendo jus a um desconto bem camarada. O valor do subsidio, de 2 bilhões de dólares permitiria comprar uma fábrica nova.” Ao entrevistar um historiador maranhense, o autor do livro registra o depoimento esclarecedor: “Todos os contratos, de 20 anos de duração, da Alumar que movimenta 430 milhões de dólares anualmente foram negociados por agentes de Sarney...Quando a Alumar anunciou a última expansão dela aqui em 2007, o anúncio da empresa foi na casa de Sarney. Fizeram uma festa lá na residência do chefe oligarca, na Praia do Calhau, pra dizer que a Alumar prestigia a família e agradece por seus honrados serviços.” [“Honoráveis Bandidos – um retrato do Brasil na era Sarney”, da Geração Editorial:São Paulo, 2009] –
O grande empecilho, no caso do projeto Belo Monte, que tinha “tudo para dar certo” não é ambiental , nem os índios, como diz a imprensa propositadamente, e sim as contas: quando começam a fazê-las, aí a mentira apareceu de novo. Por exemplo, desde 1980 lá no CNEC e no primeiro Inventário Hidrelétrico do rio Xingu afirmavam que o custo de investimento da primeira usina, a antiga Kararaô estava na faixa de 350 dólares por kilowatt instalado, enquanto na segunda usina projetada, Babaquara seria de mais de 900 dólares por kW instalado. Para comparação, sabemos que Tucuruí custou pelo menos dois mil dólares por kW instalado. Vejamos, para confrontar com este alegado “baixo custo” de Belo Monte, alguns números típicos recentes: em 2003 foi inaugurada Itapebi, uma hidrelétrica de porte médio, num rio bem menor (Jequitinhonha, no Sul da Bahia), com um canteiro de obras que fica na beira do asfalto da BR-101, a poucas horas de caminhão das fábricas de aço, de cimento, de equipamentos, de dois grandes portos marítimos (Vitória e Ilhéus). Essa usina, bancada com capitais do fundo de pensão Previ e do grupo europeu Iberdrola, tem uma única barragem convencional, uma represa com área de 60 km2; foram instalados 450 Megawatts, com um custo de investimento da ordem de 500 a 550 dólares por kW instalado.
Quando em 2008, começaram a acelerar os preparativos para licenciar Belo Monte e colocar a energia futura em leilão, diziam que o investimento total para uma usina com capacidade de 11 mil Megawatts seria de 7 bilhões de reais. Ou seja, aproximadamente 3,5 bilhões de dólares, o que daria, grosso modo, o mesmo índice de vinte anos atrás, 350 dólares por kW! Como é possível o projeto Belo Monte ter um índice de investimento mais barato do que Itapebi, ficando onde fica, longe de quase tudo, ligado por estradas péssimas e por um longo trajeto fluvial ao restante do país, e com tantas características distintas de uma obra convencional ??? É a mentira, de novo!
Ninguém sabe o custo provável e justificado de Belo Monte, essa é a realidade! Vejamos a noticia do caderno de Economia de um dos mais importantes jornais: “Mais do que questões ambientais, uma queda-de-braço entre governo e setor privado pode se tornar o principal empecilho para que a usina de Belo Monte, no Pará, saia do papel. Enquanto o Ministério de Minas e Energia estima que o custo da obra gira em torno de R$ 16 bilhões, os empresários asseguram que o empreendimento vale, no mínimo, R$ 30 bilhões. Esta discrepância foi demonstrada em reunião, ontem, entre o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, e representantes das associações brasileiras das indústrias de Base (Abdib), de Máquinas (Abimaq) e Eletroeletrônica (Abinee). Segundo um dos presentes, o novo valor da usina "chocou" os empresários. Eles alertaram que a discrepância de preços torna mais difícil a elaboração de uma equação financeira, para que finalmente a data da licitação de Belo Monte seja marcada – [ extraído de O Globo, 29/7/09, Economia, p.23].

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